Casamento e Poder: uma reflexão sobre a sociedade do século XIX

No livro O Conde de Monte Cristo, do escritor francês Alexandre Dumas (1802 - 1870), acompanhamos a subtrama do procurador do Rei, o sr. Gérard de Villefort, querendo casar a sua filha, a srta. Valentine de Villefort, com o barão Franz d'Epinay. Esse casamento é um mero contrato de negócio entre as famílias Quesnel e Villefort. Aliás, a jovem Valentine ama outra pessoa, o capitão Maximillien Morrell.

Ainda na mesma história de Dumas, encontramos outra subtrama semelhante. O banqueiro Danglars desejava casar a sua filha, a srta. Eugénie Danglars, com o visconde Albert de Morcef, mas o burguês reconsiderou tal contrato conjugal porque Albert não é tão milionário assim, e só o que possui de fato é o seu título de nobreza aristocrática. Danglars é muito ambicioso e deseja se aliar a alguém que triplique o seu capital, assim ele é convencido (na verdade, enganado) pelo Conde de Monte Cristo de que o melhor seria se ele casasse a sua filha com um príncipe italiano chamado Andrea Cavalcanti.

Nem precisamos dizer que Eugénie não gosta dessa ideia de casamento arranjado; aliás, o comportamento da jovem nos leva a crer que ela seja lésbica. Apesar do livro não descrevê-la explicitamente como tal, sua decisão de fugir com sua amiga, Louise d'Armilly, vestida como homem para evitar suspeitas, e sua aversão a casamentos arranjados, são frequentemente vistos como indícios de sua orientação sexual. 


Nesse contexto, percebemos que o casamento é um mero formalismo burocrático para firmar contratos de negócios e fortalecer a riqueza e as propriedades privadas de ambos os lados. Os aristocratas e burgueses manipulavam seus filhos a se casarem com um propósito econômico, não havia nada de sagrado ou amoroso em tais relações.

Para o filósofo alemão Friedrich Engels (1820 - 1895), o casamento não surgiu do amor romântico ou de uma escolha individual, mas sim das condições econômicas e sociais que favoreciam a dominação masculina e a concentração de riqueza. A mulher, nesse arranjo, era uma espécie de meio a finalização do contrato entre genro e sogro. Depois disso, ela era subordinada ao homem, e o casamento se tornava uma instituição que reforçava as relações de poder e a desigualdade social. 

Faz pouquíssimo tempo que o casamento por amor passou a predominar amplamente sobre o casamento arranjado, especialmente em contextos ocidentais. Embora os casamentos arranjados ainda existam em algumas culturas. Mas, por norma, a escolha individual do parceiro baseada em sentimentos e compatibilidade tornou-se um consenso recentemente. 

Por Janilson Fialho

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Hora da Estrela na Confraria: resenha sobre o clássico de Clarice Lispector

Apresentação do blog "Confraria das Traças"

Comentário sobre o poema "Cidade, City, Cité", de Augusto de Campos