A Hora da Estrela na Confraria: resenha sobre o clássico de Clarice Lispector
No último domingo (24 de agosto), a Confraria das Traças concluiu a leitura de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, obra que se revelou uma experiência intensa e ao mesmo tempo agradável para todos os participantes. O romance, publicado em 1977, pouco antes da morte da autora, é um dos textos mais enigmáticos e poéticos da literatura brasileira, no qual se entrelaçam questões existenciais, filosóficas e sociais.
A trajetória de Macabéa, personagem marcada pela simplicidade e pelo silêncio, coloca em evidência temas como a precariedade da vida, a marginalidade e a busca por sentido diante do vazio. A leitura coletiva permitiu não apenas acompanhar a narrativa, mas também refletir sobre a riqueza estilística e simbólica de Clarice, cuja escrita expande os limites da linguagem e provoca no leitor tanto encantamento quanto desconcerto.
Ao final da leitura a Confraria presenteou à Raíssa Fernandes uma edição de "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë, por ela ter sido a mais presente nas nossas reuniões.
A seguir destacaremos os comentários, resenhas, reflexões e impressões dos membros que leram o livro de Clarice Lispector. Confira:
Reflexão de Janilson Fialho
A construção textual de Clarice opera como uma abertura fenomenológica: a palavra busca desvelar e circundar o fenômeno, expandindo-se em frases longas, carregadas de tentativas de descrição. É como se o excesso verbal fosse um esforço para alcançar a essência daquilo que se mostra. Contudo, esse movimento também revela um paradoxo: quanto mais palavras são mobilizadas, mais se evidencia que o fenômeno permanece em parte inalcançável.
Assim, o estilo de Clarice revela-se como uma escrita de excesso e de encantamento — tal como é, por exemplo, o texto de Guimarães Rosa. O acúmulo de palavras, indagações e descrições não esgota o fenômeno, mas, ao contrário, ressalta sua profundidade e mistério. É nesse tensionamento entre dizer e não conseguir dizer plenamente que se encontra a força estética e filosófica de sua obra.
O ponto alto, ao meu ver, é a morte de Macabéa, porque é apresentada de forma profundamente poética. O narrador evita tratá-la como um simples acontecimento banal; em vez de anunciar diretamente “eis a morte”, ele constrói rodeios, descrevendo sensações e expandindo palavras, como se buscasse extrair o máximo da experiência escatológica. Nesse instante final, a narrativa atinge o ápice da tragicidade: o embate entre ser e nada, entre existência e vazio. Macabéa, em suas últimas forças, afirma simbolicamente “eu sou”, como se dissesse “sim” à vida e, ao mesmo tempo, “sim” à tragédia, pois a vida é isso: "um soco no estômago".
Essa aceitação ao destino remete claramente ao pensamento de Nietzsche, para quem a existência trágica é também a afirmação da vontade de potência e da necessidade inevitável do destino. O fim de Macabéa, portanto, não poderia ser outro senão aquele que se cumpriu.
Esse destino já havia sido antecipado pela figura da cartomante, que atua como um oráculo trágico da cultura grega capaz de prever o futuro. Sua aparição na obra reforça a inevitabilidade da fatalidade, inscrevendo a trajetória de Macabéa no horizonte do trágico. Assim, a narrativa não se limita ao acaso de um atropelamento, mas o insere no campo da necessidade existencial.
Há também em A Hora da Estrela uma dimensão heideggeriana, perceptível na forma fenomenológica com que Clarice Lispector constrói a narrativa. Em diversos momentos, Macabéa foge, por meio da ignorância, da questão do “si” e evita confrontar sua própria existência. Heidegger chama isso de vida inautêntica: uma forma de viver sem questionar o próprio ser, que está presa à superficialidade do cotidiano. No entanto, ao mesmo tempo em que evita a autorreflexão, a personagem demonstra um olhar singular para o mundo.
Esse olhar se manifesta em sua atenção a fenômenos simples, como a grama, a chuva ou pequenos detalhes do cotidiano, nos quais enxerga um desvelar da essência. Tal percepção possui uma profundidade filosófica que a aproxima de uma postura fenomenológica, ainda que não voltada para o autoconhecimento.
Além disso, Macabéa formula perguntas a Olímpico que, sob a aparência de ingenuidade, revelam-se questionamentos essenciais, de caráter socrático. Suas indagações expõem a fragilidade do suposto saber do namorado e desestabilizam sua pretensão de superioridade.
Assim, Macabéa encarna uma condição paradoxal: vive muitas vezes de modo inautêntico, mas possui lampejos de um olhar filosófico agudo. Ao mesmo tempo frágil e questionadora, ingênua e profunda, sua trajetória culmina em uma morte trágica que afirma a vida e revela, em sua simplicidade, um dos momentos mais intensos e poéticos da literatura de Clarice Lispector.
Comentário de Danyelle Fernandes
O que eu achei da leitura do livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, é que se trata de uma experiência única, como acontece em cada leitura. Em especial, o que mais me chamou a atenção foi a forma como a autora trabalha a ingenuidade da personagem Macabéa. Clarice a retrata com muita delicadeza, evidenciando sua simplicidade diante do mundo. Essa ingenuidade aparece na maneira como Macabéa observa a vida, sem compreender totalmente certos aspectos da realidade, mas ainda assim encontrando beleza até nos pequenos detalhes. Essa visão limitada e, ao mesmo tempo, sensível, faz com que o leitor perceba o contraste entre a dureza da realidade e a pureza da personagem, o que gera tanto ternura quanto reflexão.
Essa sensibilidade aparece em pequenos detalhes, como quando ela deseja usar uma palavra cujo significado desconhece, mas a acha bonita apenas pela sonoridade. Essa atitude revela sua pureza e sua busca, ainda que inconsciente, por beleza em meio a uma realidade dura.
O final do livro expressa muito bem esse contraste entre a inocência de Macabéa e a brutalidade da vida. Clarice mostra que não é a personagem quem perde, mas sim o mundo que a perde. Isso porque, em um tempo marcado pela indiferença, figuras como Macabéa — sensíveis, ingênuas e dispostas a viver as pequenas belezas do cotidiano — são raras e necessárias. Até mesmo em situações difíceis, como na consulta ao médico, ela demonstra sua doçura: em vez de se abalar, prefere sorrir, revelando sua força escondida na simplicidade.
Comentário de Maria Eduarda Bento
O que mais chamou atenção no livro é como Clarice mostra a solidão e a fragilidade de Macabéa, uma personagem quase invisível para a sociedade. O livro é curto, mas muito profundo, porque nos faz pensar sobre a vida das pessoas que muitas vezes são esquecidas.
Achei a leitura muito marcante. É uma obra que faz a gente refletir e enxergar as pessoas que muitas vezes passam despercebidas.
Comentário de Raíssa Fernandes
A Hora da Estrela foi o primeiro livro que li de Clarice Lispector. Posso dizer que foi uma leitura bastante marcante. O jeito como Clarice usa as palavras e cria os personagens é, de fato, genial e único. Esse é um livro que todo mundo deveria ler e reler muitas vezes, porque a história de Macabéa nos leva a uma reflexão sobre nossa própria vida e nossas vulnerabilidades. Acredito que o mais cativante da literatura é isso: poder ler a si mesmo na história, de algum modo.
Escrito por Janilson Fialho, Danyelle Fernandes, Maria Eduarda Bento e Raíssa Fernandes.


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