Comentário sobre o poema "Cidade, City, Cité", de Augusto de Campos
Farei a seguir um comentário a respeito de um poema de Augusto de Campos, de sua obra a Caixa Preta, de 1975, intitulado de "Cidade, City e cité":
atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité
Certamente, à primeira vista, você não entendeu o que estava escrito nesse poema. O emaranhado de letras e as últimas três palavras (cidade, city e cité) sugerem uma espécie de enigma. Se considerarmos como tal, precisamos examinar o poema com atenção para decifrá-lo.
Sabemos que o valor em si da poesia concreta se encontra dentro da experimentação formal e a valorização da palavra como elemento visual e espacial, além de sonora. Muitos poemas desse estilo não carregam um sentido tão claro ou uma expressão subjetiva, mas em alguns casos ela pode conter um sentido, e até pode ser utilizada como forma de crítica social, como é o caso do poema "Beba coca-cola" de Décio Pignatari, que utiliza a linguagem publicitária para criticar a sociedade de consumo.
Este poema pode suscitar uma interpretação bastante interessante. Podemos dizer que ele representa uma espécie de "polifonia da cidade". Quem vive em uma cidade grande — ao contrário de mim — conhece bem a sensação de estar imerso numa profusão absurda de sons por toda parte. Aqui, essa cacofonia sonora é traduzida por meio da escrita. Temos, nesse emaranhado de palavras — ou melhor, nesse organismo de sobreposições — um reflexo visual daquilo que normalmente ouvimos nas ruas.
Quando não estamos atentos, o som urbano se apresenta apenas como uma massa barulhenta composta por micropercepções. No entanto, ao prestarmos atenção, podemos distinguir cada som, cada fragmento, cada detalhe singular dessa paisagem acústica.
Pense nas mônadas de Leibniz e no conceito de micropercepções: pequenas percepções que, isoladamente, não se tornam conscientes, mas que, ao se somarem, formam uma percepção maior e mais complexa — como as sensações que experimentamos cotidianamente. Essas percepções ínfimas, ainda que quase imperceptíveis, são fundamentais para a constituição da consciência e da experiência do mundo.
Da mesma forma, proponho que você leia o poema com esse olhar atento: talvez tenha tentado decifrar o emaranhado de palavras de uma vez só — e ele pareceu ilegível. Essa é a nossa percepção maior e imediata, mas devemos pensar agora nas "micropercepções" que passam despercebidas ao nosso olho, ou seja, os fragmentos de palavras incompletas. Agora, vamos aplicar o seguinte método: pegue os sufixos — isto é, os finais das palavras "cidade", "city" e "cité" — e aplique-os ao fim de cada uma das palavras do poema. Em seguida, volte ao texto e repita esse exercício. Você verá que é possível distinguir, palavra por palavra, esse caos organizado — essa polifonia escrita — que traduz poeticamente os sons da cidade.
Por Janilson Fialho (25 de jul. de 2024)

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